Três Coroas Negras – Kendare Blake 

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  •    Autor: Kendare Blake
  •    Editora: Globo Alt
  •    Nº de Páginas: 304
  •    Edição: 1
  •    Ano: 2017
  •    Título Original: Three Dark Crows
  •    Tradutor: Alexandre D’Elia

   Avaliação: 8,5

Três herdeiras da coroa, cada uma com um poder mágico especial. Mirabella é uma elemental, capaz de produzir chamas e tempestades com um estalar de dedos. Katharine é uma envenenadora, com o poder de manipular os venenos mais mortais. E Arsinoe é uma naturalista, que tem a capacidade de fazer florescer a rosa mais vermelha e também controlar o mais feroz dos leões.

Mas para coroar-se rainha, não basta ter nascido na família real. Cada irmã deve lutar por esse posto, no que não é apenas um jogo de ganhar ou perder: é uma batalha de vida ou morte. Na noite em que completam dezesseis anos, a batalha começa.

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Essa é a história de três rainhas que competem para ser A Rainha. Isso, a letra maiúscula faz toda a diferença, significa estar viva. Elas passam a vida inteira treinando para, quando o rito da Aceleração chegar, estar livres para trucidar umas as outras. Adorável, não?

Logo de cara somos apresentados a uma tonelada de termos e particularidades da ilha onde se passa a história, o que seria muito mais fácil de visualizar se um bendito mapa estivesse presente… mas não, mais uma vez uma edição nacional acha que o mapa da versão original é decor. Fico muito perturbada com isso, mais do que já sou!

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TCN alterna entre o ponto de vista das irmãs e alguns outros personagens, vamos aprendendo cada vez mais sobre cada uma. E aprendendo a gostar de cada uma também. Sim, do contra que sou eu tinha que escolher uma favorita, e justo a mais fraca do trio.

Arsinoe (olha que nome poder) é a rainha naturalista. Forte, cínica, decidida, desencanada de aparências, ácida de fazer sua pálpebra tremer e…sem um pingo da dádiva. E, como se não bastasse, sua melhor amiga é a mais forte naturalista de todos os tempos. Enquanto os outros naturalistas da ilha tem poder suficiente pra atrair pássaros e cães como Familiares (uma espécie de companhia animal) o Familiar da moça é um puma! UM PUMA.

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Selo de qualidade Chuck Norris

Mas Arsinoe não tem inveja da amiga Jules, que é mais irmã que as outras rainhas. Ela sente que é inevitável morrer no próximo ano, já que não consegue reunir magia suficiente nem pra fazer uma folha cair de uma arvore. Pra cuidar de Jules Arsinoe conta com Joseph, amigo das duas desde criança e o amor da vida da garota poderosa. Agora, não vou entrar em detalhes, mas se vocês por ventura lerem Três Coroas Negras, com certeza vão querer esfolar Joseph vivo. Entrem na fila.

A rainha Katherine é uma envenenadora no mínimo decepcionante. Ok, a garota tem talento para criar venenos, mas meio que para por aí. Ela é vitima constante das irmãs Arron, as chefes da casa envenenadora que a acolheu e figuras importantes no Conselho Negro, o poder da ilha. Elas só querem treiná-la para ser mais forte e poderosa e, principalmente, sobreviver ao Ano da Ascensão para se tornar A Rainha, a quarta envenenadora consecutiva. Só que o treinamento significa horas de exposição ao mais diversos venenos e nem uma refeiçãozinha sequer sem toxinas paralisantes. O resultado é uma Katherine mirrada e cheia de cicatrizes de pústulas e picadas de cobra, deu muita dó.

Oh, espere. Acabei de perceber que eu não ligo

Oh, espere. Acabei de perceber que eu não ligo.

Mas não o suficiente. Ainda prefiro Arsinoe.

 

E por fim temos Mirabella. A perfeita rainha Mirabella. Forte como nunca se viu, capaz de atrair tempestades, causar terremotos e dançar com fogo, ainda por cima é linda de morrer e tem todos a seus pés. O Templo, a autoridade religiosa, já a considera vencedora e não esconde de ninguém seu total apoio. Ela tem do bom e do melhor, ótimas amigas e a admiração de todos. E é claro que ela não está contente, a irritante. Por favor, não me julguem por ser implicante, eu sei que ela é cheia das boas intenções. Mas só alguém que teve tudo  de bandeja poderia pensar como Mira, ela não passou os últimos dez anos ouvindo como a outra irmã era poderosa e linda e como ela não iria viver para completar 17 anos. Ainda por cima ela faz uma coisa que, mesmo não sendo tão culpa dela, não ajudou em nada minha antipatia.

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Sou time Arsinoe e pronto.

Depois de feitas as apresentações foi aí que a história engatou. Conforme a Aceleração se aproximava, a própria narrativa também ia mais rápido e mais coisas decisivas aconteciam. Depois de um começo meio lento, foi revigorante e aproveitei muito mais a leitura assim.  Fiquei obcecada com a mitologia criada sobre a ilha, algo que me lembrou muito Avalon, e ainda não consigo parar de pensar no que pode acontecer no próximo volume. Minha cabeça deu tantas voltas criando teorias sobre o final desse que, quando aliados e inimigos inesperados mostraram a cara, quase morri do coração.

Tiro meu chapéu para Blake, não esperava esse livro, e agora preciso de ajuda para sobreviver até o lançamento do próximo. Nossa, é quase como ser uma das rainhas esperando o fim do Ano da Ascensão…

xoxo e boa semana!

P.S.: Só uma curiosidade sobre os nomes das irmãs. Mirabella é de origem italiana e significa maravilhosa. Katherine vem do grego e significa pura. Já Arsinoe também é grego, muitas governantes macedônias e egípcias tinham esse nome, inclusive a irmã mais nova de Cleópatra que, por acaso (ou não), foi assassinada pela irmã por apresentar uma ameaça a sua pretensão ao trono. Arsinoe significa ‘mulher de mente elevada’. Acho que já sei qual o nome da minha futura filha 😀

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Delírio – Lauren Oliver

A capa é azul-gelo-metálico, não azul, não prateada. Azul-gelo-metálico.

  •    Autor: Lauren Oliver
  •    Editora: Intrínseca
  •    Nº de Páginas: 351
  •    Edição: 1
  •    Ano: 2012
  •    Título Original: Delirium
  •    Tradutor: Rita Sussekind
  •    Avaliação: 8,5
Muito tempo atrás, não se sabia que o amor é a pior de todas as doenças. Uma vez instalado na corrente sanguínea, não há como contê-lo. Agora a realidade é outra. A ciência já é capaz de erradicá-lo, e o governo obriga que todos os cidadãos sejam curados ao completar dezoito anos. Lena Haloway está entre os jovens que esperam ansiosamente esse dia. Viver sem a doença é viver sem dor: sem arrebatamento, sem euforia, com tranquilidade e segurança. Depois de curada, ela será encaminhada pelo governo para uma faculdade e um marido lhe será designado. Ela nunca mais precisará se preocupar com o passado que assombra sua família. Lena tem plena confiança de que as imposições das autoridades, como a intervenção cirúrgica, o toque de recolher e as patrulhas-surpresa pela cidade, existem para proteger as pessoas. Faltando apenas algumas semanas para o tratamento, porém, o impensado acontece: Lena se apaixona. Os sintomas são bastante conhecidos, não há como se enganar — mas, depois de experimentá-los, ela ainda escolheria a cura?

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Okay, esse é o quinto distópico que leio nos últimos dois meses, e só percebi isso agora. Acontece que eu adoro o gênero e não consigo me desligar dele, por mais que eu tente! (Tá, nem eu acreditei nisso, mas tudo bem) Prometo dar uma variada nas coisas por aqui… é só que… é tão legal!

Retomando: em Delírio, curaram o amor.

Sim e, acima de tudo, encararam o amor como uma perigosa doença que deve ser erradicada. Para isso todo meio é válido, incluindo o fechamento de fronteiras, lavagem cerebral em todo o povo e a submissão massiva à Intervenção. O processo de cura.

A principio achei que se referia à paixão. Sabe, toda aquela confusão hormonal que deixa as pessoas meio bobas (ou completamente dementes) por até dois anos e meio? Inclusive conheço gente que, por passar por isso tantas e tantas vezes, até toparia tomar um “antibiótico” especial, no judgmentals here! Mas é amor mesmo, ‘curaram’ o amor. Nem mães sentem coisa algum por suas crianças, e algumas pessoas até considerado de mau gosto ter filhos. Porém é preciso, ou ao menos é o que a Suma de Hábitos, Higiene e Harmonia (Shhh) afirma.

Dafuq?

A Shhh é como uma Bíblia para a nova crença. Ela casa religião e ciência e você tem que aceitar o puro racionalismo, se não, você está errado. Se você está errado, meu amigo, você é um perigo para a sociedade e não deveria estar à solta. Eles vão cuidar disso.

Essa visão me lembrou muito uma Era da Razão (Iluminismo, séc. XVIII), só que ao contrário! Ao invés de você ser livre para buscar a felicidade através da lógica e ciência, sem se preocupar em virar churrasco em praça pública, você DEVE alegar que a única felicidade vem através da lógica e ciência, ou então você VAI virar churrasco em praça pública.

Dafuq? 2

Sabe quando você pensa em todas as teorias e crendices formuladas séculos atrás, e que foram desacreditadas, e vem aquele ‘Nossa, como eles eram tontos de pensar assim’? Foi isso que me veio enquanto lia os provérbios da Shhh. Vamos descartar a visão otimista de que daqui a duzentos, as pessoas vão, provavelmente, pensar o mesmo da gente. A verdade é que mentalidades estreitas me irritam e, quando quem está no poder obriga todos a terem uma mentalidade estreita, as coisas só pioram.

Oliver conseguiu me deixar com muita raiva daquela sociedade. Ponto pra ela, que não deixou nenhum detalhe de fora e só enriqueceu a trama com todas aquelas citações da Shhh no início de cada capitulo.

Agora vamos falar um pouco de Lena, Magdalena.

“Vá por mim: se ouvir o passado falando com você, se senti-lo puxando suas costas e deslizando os dedos por sua coluna, a melhor reação – a única reação – é correr.” Pág. 143

Ela é o perfeito fruto dos laboratórios, a síntese do pensamento anti-amor, a candidata mais frenética à Intervenção. Ou seria, se não tivesse uma amiga livre pensadora e o fantasma da mãe não curada para atormentá-la. Em outras palavras, ela até queria não pensar por si mesma e deixar os outros decidirem tudo por ela, mas estava meio difícil. Sinceramente o começo do livro se arrastou, e Lena achando seus desejos e pensamentos escandalosos o tempo todo quase me fizeram mover Delírio para o fim da fila de leitura!

Mas tem alguma coisa na narrativa de Oliver que deixa qualquer livro impossível de largar. Aconteceu o mesmo com Antes Que Eu Vá, que com certeza não é o tipo de estória que me interessa, mas que me cativou DEMAIS. Por isso continuei a leitura de Delírio e não me arrependi.

Alex, o mocinho gostoso aparece, Hana fica mais estranha a cada página e o futuro, antes tão certo de Lena, começa a se fechar, não, não, a se abrir numa coisa completamente inesperada. De repente o mundo fica muito mais perigoso e excitante, os rebeldes existem mesmo e estão mais perto do que aquelas garotas imaginam. Se eu falar mais, vira spoiler, então basta dizer que li tudo na mesma madrugada.

Recomendo Delírio fortemente e, para aqueles que já leram: o final não ficou ótimo?!

O segundo livro, Pandemônio, acabou de ser lançado lá fora e ainda não tem previsão para chegar aqui.

Versões das capas americanas de Delirium e Pandemonium

xoxo e bom sábado!

Textfile #1 A Lógica no Amor ou A Estrada Feita

Textfile é uma nova coluna com pequenos textos e devaneios dos mais variados temas. Às vezes descobrimos que escrever é preciso.
 

-Acabou.

Certo, ele diz aquilo e você pensa –ou melhor, entra num vórtice- acabou o quê pra quem? Com certeza não é comigo isso, não pode ser. Obviamente você passa pela longa estrada de erros que cometeu, anda pulando de pedra em pedra tentando evitar as poças lamacentas das coisas que jurou deixar para trás, corre buscando a grama entre as lajotas do pavimento. Aquela é a sua estrada, cada rocha afiada, barro esverdeado e erva daninha ali é obra sua. Você não teria deixado as coisas chegarem naquele ponto se soubesse a sujeira que viraria. Mas deixou.

-Não tem lógica continuar assim.

Muito bem, lógica. Você fala, mas eu não entendo. Não existe essa coisa de lógica quando duas pessoas estão juntas, lógica é simplesmente a última coisa num relacionamento. Claramente você não consegue articular uma boa resposta, uma resposta convincente. Você vai ainda mais longe, na estrada, tentando achar a rua das coisas boas. Ela está lá, é LÓGICO que ela está lá. Não deveria nem ser chamada de rua e sim de avenida, de faixas duplas nos dois sentidos e belos canteiros arborizados. Então por que ela fica tão difícil de achar? Deus, você não fez questão de passear por ela mil e uma vezes?! Qual é o problema comigo?

-Vamos? Eu te deixo em casa.

Sim, não, sim. Não! Não quero ir pra casa, quero que você pare e me escute e me perdoe e beije e me diga que tudo vai ficar bem, que não passou de um susto. Ele liga o motor do carro e você sente seu tempo escoando como água na sarjeta. A porcaria da estrada dos seus erros está bem ali à sua frente, costas e lados. Se uma estrada pudesse rir, aquela estaria gargalhando na sua cara, na crueldade, vendo você suar à procura de dizer algo que preste, algo para fazer a água parar de escoar. Pensa, pensa, isso é um problema de matemática? Se for, já era, posso sentar e chorar, matemática já é ligeiramente impossível na minha cabeça, ainda mais agora! Ótimo, você está tagarelando loucamente na sua cabeça, mas reunir palavras pra uma única frase para o mundo exterior é dificultoso? Onde está a droga da avenida??

-Bem, boa sorte.

Num átimo de adrenalina você dispara na estrada e meio segundo depois seu pé se prende numa pedra, seu corpo descreve um arco perfeito e você aterrissa na maior poça-de-erro-idiota do universo. As lágrimas vem num maremoto. Então é isso? É assim que vai acabar, euzinha aqui, atolada nas minhas próprias confusões, e o que é pior: sem ele para me estender a mão novamente. Por que eu não posso fazer isso tudo desaparecer? É o que mais quero! Onde estão todos aqueles momentos maravilhosos e sensações boas? Por que eles foram embora justo quando mais preciso deles? Qual é a lógica nisso?!  Você começa a aceitar a dura realidade quando repara numa das ervas-palavras-mal-colocadas-daninhas perto da sua cabeça. É uma flor, meio esculhambada. Ela não lhe é estranha. Olha à volta mais atentamente e percebe um tronco de árvore coberto por hera-coisas-não-ditas. Por baixo da lama o pavimento é firme e uniforme. A estrada é bem mais larga naquele trecho. Uma luz se acende. Aquela é a avenida das coisas boas!

É isso! É isso! Com certeza pode demorar, provavelmente vou me enlamear e esfolar até os ossos, mas vai valer a pena, vai valer cada centésimo de pena…

Você o beija com todo o coração.

Ele suspira surpreso e uma tonelada de emoções dança em suas feições.

Você se inclina, suavemente desta vez, e roça seus lábios nos dele. Nenhum protesto.

-Não acabou. Ainda está aqui. Encoberto. Mas aqui.

Se afasta e fita seus olhos na penumbra.

-Eu já volto.

Com o coração leve sai do carro, pronta para enfrentar estrada, avenida, rua e viela. Pronta reparar qualquer coisa que precise de assistência.

Pronta pra resolver aquela lógica intrincada do relacionamento. Aquela que mata sem verter sangue, aviva das sombras, mostra o que não existe e esconde o óbvio. Aquela com camadas incontáveis e escadas movediças para caminhos bruxuleantes.

Pronta para o que for preciso.

Pronta pra tudo.