Puros – Julianna Baggott

  •     Autor: Julianna Baggott
  •    Editora: Intrínseca
  •    Nº de Páginas: 368
  •    Edição: 1
  •    Ano: 2012
  •    Título Original: Pure
  •    Tradutor: Flávia Souto Maior

   Avaliação: 6,5

 

Pressia pouco se lembra das Explosões ou de sua vida no Antes. Deitada no armário de dormir, nos fundos de uma antiga barbearia em ruínas onde se esconde com o avô, ela pensa em tudo o que foi perdido — como um mundo com parques incríveis, cinemas, festas de aniversário, pais e mães foi reduzido a somente cinzas e poeira, cicatrizes, queimaduras, corpos mutilados e fundidos. Agora, em uma época em que todos os jovens são obrigados a se entregar às milícias para, com sorte, serem treinados ou, se tiverem azar, abatidos, Pressia não pode mais fingir que ainda é uma criança. Sua única saída é fugir.

Houve, porém, quem escapasse ileso do Apocalipse.

Esses são os Puros, mantidos a salvo das cinzas pelo Domo, que protege seus corpos saudáveis e superiores. Partridge é um desses privilegiados, mas não se sente assim. Filho de um dos homens mais influentes do Domo, ele, assim como Pressia, pensa nas perdas. Talvez porque sua própria família se desfez: o pai é emocionalmente distante, o irmão cometeu o suicídio e a mãe não conseguiu chegar ao abrigo do Domo. Ou talvez seja a claustrofobia, a sensação de que o Domo se transformou em uma prisão de regras extremamente rígidas. Quando uma frase dita sem querer dá a entender que sua mãe pode estar viva, ele arrisca tudo e sai à sua procura.

Dois universos opostos se chocam quando Pressia e Partridge se encontram. Porém, eles logo percebem que para alcançarem o que desejam — e continuar vivos — precisarão unir suas forças.

————————————————————————————————————————————————————————————————–
 (A Maniaca dos Distópicos ataca novamente)

Ok, então Puros é chocante como deveria ser.

Instigante como era de se esperar.

E tem uma ideia bem interessante para ajudar.

Mas ele ainda não chega lá.

Acho que o que torna esse um livro perturbador é a relativa proximidade com a nossa realidade. Relativa por se tratar de uma sociedade tecnologicamente evoluída o suficiente para projetar esferas autossustentáveis e seguras até mesmo de ataques de bombas capazes de aniquilar e reprogramar moléculas simultaneamente. Mas, ainda assim, próxima de nós por tratar do ‘antes’.

A maioria dos livros distópicos que conheço se baseia num evento ‘divisor de águas’, mais especificamente, no que aconteceu depois. Muitas vezes a humanidade pré-evento é citada de forma maldosa ou nem sequer aparece, mas em Puros o ‘antes’ tem papel crucial para entendermos o que está acontecendo com as pessoas dentro e fora do Domo. Afinal, a estória se passa apenas nove anos depois das Explosões.

O livro é claramente dividido em três partes, apesar de eu acreditar que isso não seja intencional. Cada uma dessas partes vem carregada de conveniência, o que, pra ser bem sincera, matou o brilho da estória para mim.

SHAME

A primeira reforça a visão da miséria, caos e bizarrice do mundo Depois das Explosões. Somos imersos nas dificuldades que os miseráveis, povo fora do Domo, enfrentam, aquilo tudo que a gente já sabe, falta de recursos, doenças, anarquia, violência… mas coisas básicas, detalhes mesmo, são deixadas de lado, sem resposta! Não se sabe de onde aquele povo tira água, porque até a neve, quando cai, é escura. Não se sabe como aquele povo sobreviveu nove anos, porque o ar é pura fuligem e cinzas.

No segundo terço, a autora se esforça DEMAIS para mostrar o máximo possível de anomalias, mutilações, fusões horríveis e o escambau. É como se a Julianna tivesse ficado tão preocupada em chocar o leitor com o que viria a ser a humanidade, que se esqueceu tomar conta da sua estória. O resultado foi uma coisa forçada e cheia de pequenos buracos… Por exemplo: as pessoas durante as Explosões se fundiram com tudo: pedaços de vidro, plástico derretido, metais variados, cachorros, pássaros, amigos, irmãos, filhos… até com o chão! Mas não com as próprias roupas, e, se algumas acabaram se fundindo com o chão, por que todo mundo não ficou grudado onde estava?

“Mas blogueira, numa ficção o autor não pode criar o que quiser? Pra quê implicar com isso??” Você me pergunta.

“Elementar, meu caro leitor. O autor pode escrever o que bem entender no livro dele, de trás pra frente, pulando sílabas tônicas e tudo, mas não quer dizer que eu tenha que engolir.” Eu delicadamente respondo.

Não acho justo com o leitor o autor fazer só meia viagem. Toda ação tem uma reação, é fato, e escolher não enxergar os buracos sem sentido, as reações óbvias, me cheira a preguiça… é esse o tipo de conveniência que tira meu respeito pela estória.

Quase cheguei a isso! Quase!

Enfim, a última parte é onde as coisas importantes de verdade acontecem e essa é a melhor parte do livro, ele finalmente amadurece e mostra a que veio!  Pressia, Partridge, Bradwell, El Capitán, Lyda… são eles que deixam a narrativa de pé, correndo, e são realmente bem escritos. Mesmo em 3ª pessoa conseguimos perceber o quão complexos eles são para si mesmos, o quanto a situação em que se meteram muda completamente suas visões do mundo.

El Capitán é o meu preferido, por fora ele é todo:

e

Mas lá dentro ele é todo:

“Me ame, sim?”

Ele pode não ter tido tanto destaque quanto Pressia ou Patridge, mas ainda prevejo um bom caminho para ele no próximo volume.

Então, apesar de suas falhas, Puros é um livro intenso. A sensação que tenho agora que acabei de lê-lo é de que os outros YAs distópicos ficaram esmaecidos, em tons pastéis, perto dele. Puros não romantiza a bela barbárie, deixa que ela tome conta de si mesma, se limitando a acompanhar seus passos sangrentos. Nada ali é bonitinho por conta própria, precisa-se aprender a encontrar a beleza nos próprios olhos antes ou simplesmente viver sem.

Não espere um livro que vá baixar a guarda para você, nesse novo mundo esse tipo de coisa não existe.

xoxo e bom meio de semana!

P.S.:A editora Intrínseca aceitou minhas reclamações sobre os vários erros de revisão e tradução que encontrei e disse que irá estudá-los. Tomara que a 2ª edição venha zeradinha!

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Comments
12 Responses to “Puros – Julianna Baggott”
  1. Natália disse:

    Poxaaaaaaaaaaaa, que nota baixa! Me decepcionou quando vi.
    Concordo com esse papo da conveniência. De fato, o livro é do autor e ele pode fazer conforme sua vontade, mas depois precisará enfrentar o descaso dos leitores. Qual obra será levada a sério se não for feita com cuidado (ai deus, pensou no que estou pensando)?

    Vou ler mesmo assim porque tenho um gosto por tragédias, mas vou esperar essa segunda edição. Não importa se demorar, tenho um monte de coisa pra ler mesmo. E NÃO TENHO DINHEIRO ASUAHSUAHSUASHAUSH

    Ótima resenha, Desi. Como sempre, né =)

  2. Arthur Numeriano disse:

    É, exatamente a mesma sensação que eu tive quando li o livro. Como eu falei na minha resenha no Leiturinhas, apesar de não comprometerem o desenvolvimento da história, essas falhas mostram que a autora não teve o cuidado e a atenção necessários para escrever o enredo. Uma coisa é você intencionalmente deixar buracos na história porque eles serão preenchidos ao longo da série. Outra coisa é você simplesmente se descuidar! E muitos trechos de Pure mostram isso. Mesmo assim, Pure é um livro a ser lido, Julianna tem um grande potencial nas mãos, é só saber usar. Eu recomendo e acredito na melhoria em Fuse, o segundo livro.

    Com relação aos erros da edição da Intrínseca, eu não sei. Eu li em inglês, pouco antes de ser lançado no Brasil, então não tive esse problema.

  3. Orquidea disse:

    Olá!!
    Você escreve bem!!
    Acabei de ler um distópico. “1984” é vou ficar com esse, depois “Maravilhoso Mundo Novo” e tem mais outro clássico, (Laranja Mecânica) eu acho, mas depois paro por aqui.
    Afinal são clássicos por isso, a partir deles que se baseia p/ outras obras… como essa “Puros”…
    Parece-me pelo que disseste deprimente, na realidade distópico é, mas pelo menos “1984” faz refletir sobre dominação de uma minoria sobre a maioria, injustiças e como não acreditar em tudo, questionar…
    Abç e boas leituras!!

  4. Jheyscilane disse:

    E pelo visto a distopia ainda vai atacar novamente rsrs pra mim se torna um pouco cansativo (sabe ler sobre o mesmo tema repetidas vezes ahahah foi com os vampiros, anjos, e outras criaturinhas mais e agora pelo visto o “Mundo” que se cuide pois ele será destroçado, aniquilado e quase destruído umas trocentas milhões de vezes ewwww) ahaha brincadeiras a parte quando eu vi a Intrínseca anunciando lançamentos de Puros eu não me abalei por ele, apesar de achar os nomes dos personagens bem legais (Tenho uma mania por nomes diferentes – já comprei livros por nome de personagens ahaha)
    As pessoas se fundindo com tudo? Wowww isso sim me chamou a atenção e até me lembrou o filme A mosca em que no final o cientista que já é mosca se funde com a máquina de metal e vira o “mostal” ahaha demais esse filme, meio bizarro mas legal
    Voltando ao livro (como eu me disperso fácil senhor!) fiquei muito interessada nessas duas primeiras partes do livro (as que você menos gostou rsrs) acho que vou colocá-lo na minha lista
    Resenha ótima como sempre (como você consegue hein?)
    Bjs

  5. Amanda disse:

    hahaha, adorei a primeira frase porque também me considero “a louca das distopias”! Vejo que o livro é distópico e já quero ler pra ontem. Inclusive esse livro está na minha lista de desejados. Atualmente estou lendo duas distopias: “Laranja Mecânica” e “A Seleção”. E hoje terminei de ler “O Pacto” (que diga-se de passagem, não gostei muito :~)
    Sua resenha é a primeira que leio sobre esse livro. E olha, confesso que me assustei quando li esse ‘quote’ onde você deixa sua opinião sobre ficção! Esses dias eu estava pensando sobre isso e eu não poderia CONCORDAR mais com você! ODEIO quando vejo alguém dizer: “mas você está lendo ficção, ué”. Como se isso justificasse qualquer baboseira que enfiam na história. ¬¬’ Vamos ver o que vou achar do livro quando ler… Espero poder fazer isso em breve. Xiih, que pena que a revisão deixou a desejar! :~ mas que bom que te ouviram.

    Beijos,
    Amanda — Lendo & Comentando
    ^_^

  6. Poxa, jah tava achando q seria mais um otimo distopico mas parece q naum… ehhhh naum, não pretendo ler. nem 2º, nem 3º edição… não vai rolar. eu vou passar o livro todo xingando e perguntando igual a vc: “por que todo mundo não ficou grudado onde estava?” pq eu tb sou adepta da filosofia: ‘O livro é seu, vc escreve. Mas eu n aceito e não gosto.’ pq mesmo com uso de magia (n eh o caso de Puros eu sei) REGRAS existem! Soh ver HP e perceber como mesmo sendo bruxos a Hermione não sabe cozinhar. não eh pq tem magia q td se resolve assim em um ‘puff’ tem q ter uma minima logica!!!!
    Quem sabe em uma edição revista e ampliada eu de uma chance a ele. Fora isso acho q ele pode sobreviver sem mim e eu sem ele kkkkkkkkkkkkkk

  7. Ceile disse:

    Esse livro era o próximo que eu pediria pra editora, mas, sério, vou pensar melhor. Por mais que ele tenha uma última parte muito boa, estou querendo livros mais “inteiros”, que me prenda do início ao fim e, sério, não acho (mais) que seja o caso desse =]

    Ah, talvez eu também adore o El Capitán. Adoro homens “mucho macho” que são uns amores por dentro (se eu entendi bem suas “figuras de linguagem”)

    Beijos!

  8. Clara disse:

    Esse é um livro que eu tô interessada, se tiver uma oportunidade de ler, quero ver como é que vai ser!
    maravilhosomundodetinta.blogspot.com.br

  9. Quando entrei no estande da Intrínseca até pensei em comprar Puros, mas fui iluminada e lembrei que você o resenharia e bom, eu não entendo nada de distópicos, então preferiria ler a sua opinião antes, a opinião da maníaca por distopias!!!
    Em breve quando o dinheiro começar a entrar em meu caixa novamente – se eu não o gastar com chocolate, novamente, compro Puros…

  10. Rafaela. disse:

    De, você me anima com suas resenhas! 🙂
    Vi este livro na Bienal, mas nem prestei muita atenção. Agora, acho que devo dar uma chance à ele. Só pela terceira parte que você citou, parece muito bom… apesar dos pesares. rs

    Ah, esta gif do Christian Bale é tão linda. haha

  11. Gabi disse:

    Siim, Siim, Siiiiiim!
    Os malditos buraquinhos são frustrantes, se ela tivesse concertado isso, o livro seria perfeito. E também gostei muito do El Capitán, ele é exatamente como você descreveu *-* (Christian Bale seu gostoso)

    Agora o que está me deixando maluca aqui é que eu não vi esses erros de revisão! No meu só estava mesmo com as páginas duplicadas. Vou reler o livro minuciosamente para ver se estou ficando cega e analfabeta.

    Beijitos

  12. vinicius R. disse:

    tô lendo o livro ainda, e posso dizer que os erros de revisão estão dando nos nervos. Serio. Principalmente nas primeiras partes, é como se a tradutora tivesse feito um rascunho, e ficou com preguiça de refazer. Isso dificultou muita a leitura, mas a estoria compensa, porque sinceramente, esse está sendo um livro distópico que está me surpreendendo de verdade (tirando o fato da falta desses detalhes que você citou, os quais a autora esqueceu, mas acho que ela melhora depois), levando em conta o fato de eu ser um dos “Formuladores de Teorias da Conspiração Anônimos”. kk

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