Textfile #1 A Lógica no Amor ou A Estrada Feita

Textfile é uma nova coluna com pequenos textos e devaneios dos mais variados temas. Às vezes descobrimos que escrever é preciso.
 

-Acabou.

Certo, ele diz aquilo e você pensa –ou melhor, entra num vórtice- acabou o quê pra quem? Com certeza não é comigo isso, não pode ser. Obviamente você passa pela longa estrada de erros que cometeu, anda pulando de pedra em pedra tentando evitar as poças lamacentas das coisas que jurou deixar para trás, corre buscando a grama entre as lajotas do pavimento. Aquela é a sua estrada, cada rocha afiada, barro esverdeado e erva daninha ali é obra sua. Você não teria deixado as coisas chegarem naquele ponto se soubesse a sujeira que viraria. Mas deixou.

-Não tem lógica continuar assim.

Muito bem, lógica. Você fala, mas eu não entendo. Não existe essa coisa de lógica quando duas pessoas estão juntas, lógica é simplesmente a última coisa num relacionamento. Claramente você não consegue articular uma boa resposta, uma resposta convincente. Você vai ainda mais longe, na estrada, tentando achar a rua das coisas boas. Ela está lá, é LÓGICO que ela está lá. Não deveria nem ser chamada de rua e sim de avenida, de faixas duplas nos dois sentidos e belos canteiros arborizados. Então por que ela fica tão difícil de achar? Deus, você não fez questão de passear por ela mil e uma vezes?! Qual é o problema comigo?

-Vamos? Eu te deixo em casa.

Sim, não, sim. Não! Não quero ir pra casa, quero que você pare e me escute e me perdoe e beije e me diga que tudo vai ficar bem, que não passou de um susto. Ele liga o motor do carro e você sente seu tempo escoando como água na sarjeta. A porcaria da estrada dos seus erros está bem ali à sua frente, costas e lados. Se uma estrada pudesse rir, aquela estaria gargalhando na sua cara, na crueldade, vendo você suar à procura de dizer algo que preste, algo para fazer a água parar de escoar. Pensa, pensa, isso é um problema de matemática? Se for, já era, posso sentar e chorar, matemática já é ligeiramente impossível na minha cabeça, ainda mais agora! Ótimo, você está tagarelando loucamente na sua cabeça, mas reunir palavras pra uma única frase para o mundo exterior é dificultoso? Onde está a droga da avenida??

-Bem, boa sorte.

Num átimo de adrenalina você dispara na estrada e meio segundo depois seu pé se prende numa pedra, seu corpo descreve um arco perfeito e você aterrissa na maior poça-de-erro-idiota do universo. As lágrimas vem num maremoto. Então é isso? É assim que vai acabar, euzinha aqui, atolada nas minhas próprias confusões, e o que é pior: sem ele para me estender a mão novamente. Por que eu não posso fazer isso tudo desaparecer? É o que mais quero! Onde estão todos aqueles momentos maravilhosos e sensações boas? Por que eles foram embora justo quando mais preciso deles? Qual é a lógica nisso?!  Você começa a aceitar a dura realidade quando repara numa das ervas-palavras-mal-colocadas-daninhas perto da sua cabeça. É uma flor, meio esculhambada. Ela não lhe é estranha. Olha à volta mais atentamente e percebe um tronco de árvore coberto por hera-coisas-não-ditas. Por baixo da lama o pavimento é firme e uniforme. A estrada é bem mais larga naquele trecho. Uma luz se acende. Aquela é a avenida das coisas boas!

É isso! É isso! Com certeza pode demorar, provavelmente vou me enlamear e esfolar até os ossos, mas vai valer a pena, vai valer cada centésimo de pena…

Você o beija com todo o coração.

Ele suspira surpreso e uma tonelada de emoções dança em suas feições.

Você se inclina, suavemente desta vez, e roça seus lábios nos dele. Nenhum protesto.

-Não acabou. Ainda está aqui. Encoberto. Mas aqui.

Se afasta e fita seus olhos na penumbra.

-Eu já volto.

Com o coração leve sai do carro, pronta para enfrentar estrada, avenida, rua e viela. Pronta reparar qualquer coisa que precise de assistência.

Pronta pra resolver aquela lógica intrincada do relacionamento. Aquela que mata sem verter sangue, aviva das sombras, mostra o que não existe e esconde o óbvio. Aquela com camadas incontáveis e escadas movediças para caminhos bruxuleantes.

Pronta para o que for preciso.

Pronta pra tudo.

Anúncios

5 comentários sobre “Textfile #1 A Lógica no Amor ou A Estrada Feita

  1. Vitor disse:

    muita gente jah passou por esse tipo de coisa, mas são poucas as que conseguem enxergar ‘a luz no túnel’, acho que tudo nessa vida eh um aprendizado. Parabens por dar voz a isso.

    Lindo.

    Ela conseguiu ele de volta? (2)

Mostre que está acordado:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s